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Archive for maio \30\UTC 2012

O professor da Universidade de Nova York Greg Grandin escreve sobre políticas internacionais americanas, América Latina e direitos humanos. Ele é o autor do livro “Fordlândia – Ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva“, obra que foi finalista do Prêmio Pulitzer. Ele foi entrevistado pelos jornalistas Amy Goodman e Juan Gonzáles, do Democracy Now!, um programa de notícias independente exibido por diversas emissoras americanas. Veja a transcrição em português abaixo do vídeo.

Amy Goodman: Queremos ampliar essa discussão, indo além de Honduras agora para a América Latina, a América do Sul, em particular, para o novo livro que você acabou de escrever, que é muito interessante, “Fordlândia: ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva” Cidade. O livro conta a história de Henry Ford, o homem mais rico do mundo na década de 1920, e sua tentativa de construir uma plantação de borracha e uma cidade do meio oeste em miniatura nas profundezas do coração da Amazônia brasileira. É um olhar fascinante, especialmente com a decadência da indústria automobilística nos Estados Unidos, olhando para a política dos EUA para a América Latina.
Diga-nos, o que era Fordlândia?
Greg Grandin: Bem, Fordlândia era a cidade central de uma concessão de sesmaria, de duas e meia milhões de hectares. Era do tamanho de um pequeno estado norte-americano – Connecticut Delaware ou, às vezes ele foi comparado com o Tennessee. E foi a tentativa da Ford de obter controle sobre o látex. Era o rugido em 1920. Ele controlava todas as matérias-primas que entraram na confecção de um carro, com exceção de borracha. E assim, ele se mudou para a Amazônia. Ele se mudou para o Brasil.
Mas rapidamente se tornou muito mais do que isso. É Henry Ford e Henry Ford era uma figura histórica descomunal. Tornou-se uma tentativa de exportação da América, americana, para sobrepor sobre a Amazônia e replicar uma cidade do Meio-Oeste americano no fundo do coração da Amazônia.
Juan González: E Ford, é claro, foi o lendário naqueles dias, porque ele foi o primeiro grande capitalista que acreditava em pagar a seus trabalhadores um salário decente, para que eles fossem capazes de fazer o suficiente para comprar os carros que eles estavam fazendo, certo?
Greg Grandin: Sim.
Juan González: Você poderia falar sobre suas políticas de trabalho e como isso foi transferido…
Greg Grandin: Sim.
Juan González: …quando ele se estabeleceu no Brasil?
Greg Grandin: A Ford, o famoso fordismo tinha como princípio que se você paga aos trabalhadores $5 por dia, lhes permitirá comprar os produtos que eles fazem e, assim, expandir o mercado, então o lucro depende altos salários. Essa era a idéia. E por um longo período de tempo, esta foi a peça central do capitalismo dos EUA, e também, naturalmente, o seu processo de linha de montagem revolucionária, que fraciona o processo de produção até o seu mais simples componente. Isso tudo acontece no finas doas anos 1910.
Na década de 1920, quando ele estabelece a Fordlândia, Ford ainda está sendo comemorado como o homem que democratiza o capitalismo, mas, na realidade, no chão de fábrica, ele conta com um programa bastante brutal de anti-sindicalismo. Ele conta com seu capanga, Harry Bennett, para impor a disciplina de chão de fábrica, o que um historiador compararia a um Estado totalitário. E assim, em muitos aspectos, Fordlândia é a tentativa da Ford de recapturar uma inocência perdida ou de ser este manto redentor da história. Ford revoluciona o capitalismo, mas depois ele passa a maior parte do resto de sua vida tentando colocar o gênio de volta na garrafa. Em alguns aspectos, você pode pensar nele como o aprendiz de feiticeiro. Ele tenta qualquer número de experiências de reforma social nos Estados Unidos. Ele cria essas pequenas vilas industriais no norte do Michigan, que tentam equilibrar a agricultura e a indústria. Agora, estes não eram páreo para a força bruta do capitalismo industrial. E ele se torna cada vez mais idiossincrático e peculiar em sua visão social. E Fordlândia, em muitos aspectos, é uma espécie de terminal de uma vida inteira de idéias muito peculiares de como organizar a sociedade.
Juan González: E ele controlava os trabalhadores só no chão de fábrica, mas também suas vidas em geral.
Greg Grandin: Sim.
Juan González: E ele conduziu – ele tinha seus empregados vigiados, observava o que estavam fazendo, como eles estavam se divertindo. E ele levou o que mais para o Brasil, também?
Greg Grandin: É, foi uma combinação de paternalismo intenso e vigilância intensa, com a metade de vigilância crescente como a parte paternalista falha nos Estados Unidos.
No Brasil, era um programa de regulação social. Ele exportou a Lei Seca. Ele não gostava de beber, mesmo que isso não fosse uma lei brasileiro. Ele tentou regulamentar a dieta dos trabalhadores brasileiros. Você sabe, ele era maníaco por alimentação saudável, então ele os fez comer arroz integral e pão de trigo integral e pêssegos enlatados de Michigan e aveia. Ele também tentou regular o seu tempo de lazer.
Juan González: Ele introduziu quadrilha para substituir o samba.
Greg Grandin: Ford foi um grande defensor da dança norte-americana tradicional. Ele não gostava de dança moderna. Ele não gostava de jazz. Ele achava que jazz era muito sensual e corrompia. Assim, nos Estados Unidos, ele foi resgatar polcas e valsas e quadrilhas, e ele fez o mesmo no Brasil.
Amy Goodman: Eu quero mostrar um clipe antigo sobre Fordlândia. Isto é de 1944, um documentário produzido nos Estados Unidos chamado ‘A Amazônia desperta’. Ele foi feita por Walt Disney, mas encomendado pelo Coordenador dos EUA de Assuntos Interamericanos.

(Inicia a exibição do documentário, que também foi transcrito em português aqui no Blog, veja)

Aguarde a segunda parte da entrevista, que será postada em duas semanas.

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Em 15 de setembro de 1928 o Jornal A Cidade anunciava a chegada dos navios Lake Ormoc e Lake Farge a Santarém, a partir de onde seu carregamento de máquinas e materiais seria enviado ao local onde construiria-se Fordlândia. Como o acesso aquela região não poderia ser feito com barcos do porte do Ormoc e do Farge, lanchas menores fretadas levariam a carga.

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Caixa d’água vista da antiga usina de energia, em Fordlândia. Caixa d’água vista pela janela da fábrica da Packard Motors, em Detroit./Foto: Fordlândia – Juliana Geller, Detroit – Marchand e Meffre

Não é a história intimamente ligada à Ford Motor Company a única semelhança que resta entre Fordlândia e Detroit. Também são parecidos os prédios em ruínas que vemos nos dois locais.

Em Fordlândia, a estrutura foi deixada para trás pela companhia e em Detroit, a partir da década de 50, a relocação de indústrias para os subúrbios e uma nova organização do espaço urbano aceleraram o êxodo da população das áreas centrais para as periferias, fazendo com que bairros inteiros ficassem abandonados.

Fachada da antiga usina, em Fordlândia/Foto: Juliana Geller

Michigan Central Station, em Detroit/Foto: Marchand e Meffre

Sala do Detroit National Bank, em Detroit/Foto: Marchand e Meffre

Administração de máquinas e ferramentas, no cercado, em Forlândia/Foto: Juliana Geller

O trabalho dos fotógrafos Yves Marchand e Romain Meffre, realizado de 2005 a 2010 e exposto ano passado na Gun Gallery em Estocolmo, retrata os prédios abandonados de Detroit, agora a coleção está na Wilmotte Gallery em Londres. Para conhecer as ruínas de Detroit é possível também fazer um tour com guia pelos locais.

O que restou de uma cadeira de dentista, no Hospital Henry Ford, em Fordlândia/Foto: Juliana Geller

Consultório de dentista abandonado, em Detroit/Foto: Marchand e Meffre

Sala de aula de biologia, em Detroit/Foto: Marchand e Meffre

Móveis do hospital armazenados no cercado, em Fordlândia/Foto: Juliana Geller

Você pode ver mais fotos da coleção de Marchand e Meffre neste link.

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No último dia 4 de maio Belterra completou 78 anos de existência. Desses, são apenas 16 anos como município emancipado. A cidade é jovem e ainda passa por processo de amadurecimento.

Quando a Companhia Ford deixou para trás seu projeto, os terrenos foram compradas da empresa pelo Governo Federal, e pertenceram a ele até a emancipação, quando parte das terras foram cedidas ao município. Por conta disso, impostos como o IPTU por exemplo, tiveram que ser implantados em Belterra aos poucos e com campanhas que esclarecessem a população.

Para envolver as pessoas na administração da cidade, foi implementado um sistema de parceria entre a prefeitura e os cidadãos: a população toma conhecimento dos recursos e das necessidades da prefeitura e é estimulada a colaborar no que puder, inclusive na prestação de serviços a comunidade.

Um Plano Diretor Participativo também está em fase de elaboração em Belterra, apesar de a cidade ter 16.451 habitantes e a exigência de Plano Diretor ser dirigida apenas a municípios com mais de 20 mil habitantes.

Saiba mais sobre a cidade de Belterra nesse post.

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Em 25 de agosto de 1928, o colunista que assina como Flavius faz uma crítica à orgãos de imprensa e movimentos estudantis de outros estados, principalmente de São Paulo, que reagiram de maneira negativa aos investimentos estrangeiros no território da Amazônia.

“São Paulo, o grande Estado modelo da Federação, por assim dizer, do engrandecimento patrio; lembrou-se de nós! Lembrou-se por intermedio de sua mocidade estudantina; lembrou-se é facto, mas lembrou-se de um modo singular: para compater o nosso progredimento…”

As oposições paulistas ao projeto da Ford surgem oportunamente ao mesmo tempo em que começa  a ser divulgada uma série de evidências de que houveram subornos por trás da concessão de terras à companhia. Pouco depois, em fevereiro de 1929, o novo governador do Pará, Eurico de Freitas Valle anunciou que analisaria minuciosamente os documentos da transação e suspendeu a isenção de impostos adotada inicialmente.

“Que desejam pois os nossos irmão sulistas com essa campanha injustificável contra a concessão Ford. Porventura só a elles cabe o direito de progredir, enriquecer, viver a tripa forra, em quanto a nós não nos sobra, sequer, a vontade de sair da cepa torta?”

Quer saber mais sobre a história do projeto da Companhia Ford do Brasil na Amazônia? Acesse a FanPage e confira a linha do tempo ano a ano.

*As cópias do Jornal A Cidade utilizadas nesse e em outros posts podem ser encontradas no Instituto Cultural Boanerges Sena (Travessa 15 de agosto, 1248, Santarém, Pará – Fone: 93 35233690)

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