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Posts Tagged ‘Borracha’

Um documentário produzido em 1944 por Walt Disney e comissionado pela Coordenação Norte-Americana para Relações Inter-Americanas mostra  Fordlândia de uma maneira otimista, como um local promissor onde progresso e natureza convivem harmonicamente. Nada é mencionado a respeito do mal-das-folhas, que vinha dizimando os seringais de Ford, ou a dificuldade para manter funcionários, outro grande problema para a empresa.

Confira abaixo o documentário transcrito em português:

Entre os pioneiros atuais da Amazônia que estão iluminando o caminho para outros seguirem está Henry Ford. A exploração de borracha da Ford no rio Tapajós é um empreendimento de proporção histórica. Aqui, dois milhões de hectares de floresta estão sendo convertidas em plantações altamente modernizadas, capazes de produzir borracha em larga escala.

Nas profundezas da selva, este modelo de comunidade é auto-suficiente em cada detalhe. Tem a sua casa própria energia, iluminação elétrica, um sistema de telefonia, a sua loja própria máquina completamente equipada com ferramentas modernas. Há um laboratório para processamento de borracha, uma fábrica de gelo e um corpo de bombeiros. Há lojas sem fins lucrativos, onde os alimentos e roupas são vendidos para os funcionários. Há equipamento de construção de estrada moderna, e 200 quilômetros de estradas já foram implantados na plantação. Dezessete mil hectares de floresta foram desmatados e plantadas seringueiras.

Trabalho científico e habilidade de mãos dadas para produzir as melhores árvores de borracha possíveis. Ford vasculhou os cantos mais remotos da Amazônia, bem como da Ásia, para obter um estoque selecionado e usá-lo para construir as suas próprias super árvores de borracha. Seringueiras silvestres produzem de três a quatro quilos de borracha por ano. Mas as árvores cultivadas produzem de duas a três vezes este montante, e a produtividade aumenta conforme as árvores crescem. No tratamento do látex, a borracha é reduzida para formas convenientes, que facilitam o manuseio e transporte e economizam espaço.

O cuidado científico, palavra de ordem da plantação, é estendido para o elemento humano. Os 5.000 habitantes tem acesso a todos os meios de tornar a vida na selva saudável, feliz e confortável. As casas dos trabalhadores são limpas e arejados e oferecem um ambiente agradável com as conveniências modernas.

As famílias que vivem na fazenda são altamente capazes de apreciar estas vantagens. Aos seus filhos são dadas todas as oportunidades para se tornarem indivíduos saudáveis e felizes. Há sete escolas modernas espalhados pela plantação, com uma matrícula total de 1.200 crianças. As crianças da cidade grande podem muito bem invejar estes jovens, que, em um ambiente rural saudável, são ensinados os três Rs, assim como da cultura física e higiene. Há ainda uma creche para as crianças mais jovens cujas mães desejam trabalhar. Aqui, os jovens recebem o melhor dos cuidados, incluindo refeições balanceadas. O melhor não é bom o suficiente, pois estes são os conquistadores futuros da Amazônia. Bem, aqui eles vêm. A creche encerrou por hoje, e o irmão está à disposição para levar para casa o pequeno. Não há problema de transporte aqui.

O hospital, com o melhor equipamento moderno e ótimo pessoal, oferece assistência médica gratuita para os funcionários.

Lazer é essencial primeiro para manter uma boa saúde. Os jogos empolgantes servem a um propósito duplo, também aliviam a monotonia. Mais tarde, um almoço é servido ao ar livre, seguido de delícias. Em seguida, vem a rodada da tarde de golfe, jogado nos campos próximos às plantações com um belo pano de fundo da selva.

Hoje, a plantação de Ford é uma empresa bem sucedida, um tributo à habilidade e ciência, as novas armas do pioneiro século XX.

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Uma série de fatores influenciou o fracasso do empreendimento da Ford na Amazônia, um dos maiores foi a falta de funcionários. A promessa de salários que chegariam até 5 dólares ao dia não foi cumprida, ainda assim, o valor pago pela companhia era 25% a 35% maior que os praticados na região. Mas a economia local era baseada em crédito e escambo, e o pagamento de salários fixos tornava difícil manter os empregados, que ao juntar dinheiro suficiente para viver alguns meses, abandonavam o trabalho. A rotatividade em Fordlândia chegava a 300%.

A companhia também  oferecia alimentação, assistência médica ao trabalhador e sua família, escolas, habitação, entre outros benefícios, mas nada disso foi suficiente para que homens abandonassem os velhos hábitos do extrativismo e passassem a trabalhar conforme as regras da empresa, entre as quais estava a proibição do consumo de bebidas alcóolicas e horários que deveriam ser estritamente seguidos. A alimentação fornecida aos trabalhadores também não agradava, carnes embutidas e legumes não faziam parte da dieta normal do amazônida, acostumado a comer farinha de mandioca, item vetado no refeitório da Ford.

Veja no quadro abaixo a variação no número de trabalhadores obtidos pela Companhia Ford Industrial do Brasil durante os 6 primeiros anos do projeto.

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As cidades criadas pela Ford no meio da Amazônia despertam a curiosidade de pessoas no mundo inteiro. Em janeiro de 2009 a rede de TV Al Jazeera, do Catar, esteve em Fordlândia para produzir uma reportagem sobre o lugar.

Confira a transcrição da matéria de Gabriel Elizondo:

“Dona Olinda tem dificuldades para encontrar palavras que descrevam como era naquele tempo, quando a Ford Motor Company chegou à pequena vila na Amazônia. Eram os anos 20 e Ford precisava de borracha para os pneus dos carros produzidos por sua fábrica em franca expansão.

Então ele comprou um pedaço de 10.000km² da Amazônia onde seringueiras eram árvores nativas. Ford fincou uma bandeira em sua terra, a Fordlândia.

A companhia limpou o terreno e construiu uma nova cidade com boas casas em estilo americano, escolas e um hospital com tecnologia de ponta. E tudo era disponível para todos, mesmo os que não estavam entre os 4.000 funcionários locais da empresa. “O que ele construiu, no meio da floresta, era um feito como nunca visto antes nesta região”, disse Cristovam Sena, Engenheiro Florestal.

À princípio, parecia promissor, mas os gerentes americanos de Ford não eram botânicos, e a maioria das árvores morreu quando eles tentaram, de maneira incorreta, recultivar o solo. Então a borracha sintética foi inventada nos Estados Unidos, diminuindo a demanda por borracha da Amazônia.

Apresentador: Só nesta fábrica, Ford esperava produzir borracha suficiente para os pneus de 2 milhões de carros, mas ele nunca chegou perto de atingir este objetivo, então em 1945 ele simplesmente deixou o projeto e vendeu toda Fordlândia de volta ao governo brasileiro por meros US$250.000

E tão rapidamente quanto ele construiu Fordlândia, Henry Ford a abandonou. Os americanos voltaram a matriz da empresa, em Dearborn, Michigan, e enterraram as esperanças dos moradores locais.

Fordlândia, com  2.000 habitantes, ainda existe hoje, mas os prédios da Ford foram deixados apodrecendo, a maioria abandonado.Alguns sinais esfarrapados da presença americana foram deixados, mas o governo brasileiro nunca deu utilidade às construções. Era simplesmente uma área muito remota para servir a qualquer propósito.

Para alguns, Ford não tinha más intenções, eles apontam o fato de que a companhia pagou todos os débitos com os trabalhadores antes de partir. Outros mencionam a destruição do meio ambiente causada para a construção de Fordlândia e os prédios abandonados como o primeiro exemplo do século XX da realidade fria do capitalismo corporativo.

“Um fracasso. É a única maneira para descrever o que foi Fordlândia para Henry Ford”, afirma Cristovam Sena.

Dona Olinda hoje tem 98 anos de idade, ela é uma dos poucos brasileiros ainda vivos que trabalharam para a Ford. A memória daquele tempo já é desbotada, mas talvez isso seja uma coisa boa, considerando como se deu o último capítulo da desventura de Ford na Amazônia.

Gabriel Elizondo – Al Jazeera.

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Entre os anos de 1980 e 1986, o brasilianista americano Warren Dean esteve no Brasil realizando pesquisas que resultaram no livro “A luta pela borracha no Brasil: um estudo de história ecológica, onde narra a ascensão da exploração da borracha na Amazônia, o início do cultivo na Malásia, a falência causada por isso e a tentativa de plantar a seringueira de maneira racional no Brasil.

“O autor destaca a importância de uma contextualização global no tocante às espécies nativas, patentes, transgênicos etc. através de questões como: Como o Brasil perdeu o monopólio da borracha? Por que os brasileiros não empreenderam o cultivo da seringueira, em resposta à ameaça do sudeste asiático? Como os Estados Unidos que durante mais de vinte anos, aplicaram capital e tecnologia na plantação de seringueiras no Brasil não obtiveram êxito?”*

Dean foi professor do Departamento de História da Universidade de Nova York, como Greg Grandin, o autor de Fordlândia.

*Trecho da sinopse disponível no site da Editora Nobel

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O jornalista investigativo americano Joe Jackson é o autor do livro “O ladrão no fim do mundo“, no qual conta como o inglês Henry Wickham levou 70 mil sementes de seringueira da Amazônia para a Inglaterra (lembra que já falamos disso por aqui?).

Confira um trecho da sinopse divulgada pela Editora Objetiva:

“Movido pela ambição de crescer na indústria da borracha – filão comandado pelo Brasil na época – Wickham decide se aventurar pela selva amazônica em busca de um tipo particular de seringueira que produzia a borracha mais forte, durável e almejada pelos ingleses.

Após enfrentar os perigos da floresta, ter encontros com insetos gigantes e habitantes do rio Amazonas, entre outras experiências que quase o levaram à morte, Henry Wickham retorna à Inglaterra com milhares de sementes raras de seringueira que, depois de estudadas no jardim botânico de Londres, o Kew Gardens, foram enviadas para plantações nas colônias inglesas tropicais.”

Segundo o jornal Washington Post, “o ladrão no fim do mundo não é simplesmente informativo e instrutivo, é também extremamente divertido – um atributo sempre bem-vindo.”

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Entre anos de 1920 e 1921 os norte-americanos viveram uma recessão na sua produção industrial, da qual já mostravam sinais de recuperação em 1922. Mas para os produtores de borracha isso significou acúmulo de estoques e queda da cotação da matéria prima, que, em Nova York, caiu de U$58,85 por libra em 1916 para U$16,35 em 1921.

Porém, a preocupação com a superprodução de borracha não era novidade para os ingleses, que detinham 57,6% dos investimentos nas plantações de seringais no oriente, em 1917 a Rubber Growers Association (organização que representava a maior parte das companhias inglesas produtoras de borracha) já havia proposto aos seus associados limitar a exportação da safra do ano seguinte a 80% da produção.

Alarmado com a baixíssima cotação da borracha em 1921, o então Secretário das Colônias inglês, Lord Winston Churchill, nomeou uma comissão oficial com oito homens, liderados por James Stevenson, para definir medidas a serem tomadas a fim de controlar o preço da borracha, mantendo-o alto.

Lord Winston Churchill

As diretrizes apresentadas por esta comissão foram chamadas de Plano Stevenson e determinavam:

  • a fixação da produção de cada plantador em um “standard production” baseado na safra de 1º de novembro de 1919 à 31 de outubro de 1920,
  • a substituição do imposto único de exportação por um importo com tarifa variável – o produtor  que exportasse até 65% da safra padrão pagaria a tarifa mínima de 4 pences por libra exportada. Para quem exportasse mais, a cada 5 pontos de percentagem extra seria cobrado um pence de imposto,
  • esta porcentagem máxima sobre a qual incidiria a taxa mínima do imposto seria ampliada ou retraída de acordo com a variação da cotação da borracha.

Nessas circunstâncias, ou a oferta reduziria, o que acarretaria aumento dos preços, ou ela seria mantida ou aumentada a preços crescentes. Em qualquer um dos casos, os exportadores seriam beneficiados.

Foi por causa disso que grandes companhias americanas como a U.S. Rubber e a Goodyear compraram, em 1922, grandes plantações de seringa na Malásia e em Sumatra, e mais tarde, em 1924, a Firestone comprou um seringal falido na Libéria.

*Post produzido com informações da dissertação de mestrado de Francisco de Assis Costa (Capital estrangeiro e agricultura na Amazônia: A experiência da Ford Motor Company) e do livro de A luta pela borracha, de Warren Dean.

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